A meta nacional é 40% até 2027. Só que uma percentagem nacional não indica um cano.
Angola assumiu, no Pacto Nacional pela Água, baixar a água não faturada (ANF, também grafada água não facturada) para menos de 40% até 2027 nos principais sistemas urbanos, e para menos de 30% até 2030/2032. É uma meta clara e um bom ponto de partida. O que uma meta nacional não faz é dizer a uma equipa por onde começar — para isso é preciso descer da percentagem para a zona, e da zona para a noite.
O operador já disse qual é a lacuna.
Em Outubro de 2024, o porta-voz da EPAL, Vladimir Bernardo, descreveu a situação da rede de Luanda nestes termos:
«A EPAL, de momento, não possui um sistema de telegestão que permite monitorar a rede a distância, sendo assim, só tomamos conhecimento de algumas rupturas tardiamente.»
Na mesma ocasião, o presidente do conselho de administração, Adão da Silva, quantificava o desequilíbrio: um défice diário de cerca de 1,2 milhões de metros cúbicos em Luanda, capacidade instalada de 760 mil m³/dia e produção efectiva de 633.851 m³/dia, para uma população da ordem dos 10 milhões. O projecto PROÁGUA tem precisamente entre os seus objectivos a introdução de monitorização remota e automação, pelo que este quadro está em evolução — a declaração acima tem quase dois anos e deve ser lida com essa data.
Vale a pena reter a lógica por detrás dela, porque é generalizável a praticamente todos os sistemas angolanos: enquanto a rotura só é conhecida quando alguém a vê, o tempo até à reparação é determinado pela sorte e não pela gestão. Uma conduta que perde durante seis semanas até ser reportada perde exactamente o mesmo que uma reparada em dois dias — com a diferença de que ninguém sabe qual das duas está a acontecer neste momento.
Três passos, e o segundo é o que quase nunca existe.
- Balanço hídrico do sistema. Volume produzido contra volume facturado. Dá-lhe a percentagem — a mesma que a meta usa — e não lhe diz onde está a perda. Quase todos os sistemas conseguem chegar aqui.
- Zonas de medição e controlo (ZMC). Dividir a rede em zonas hidraulicamente discretas, medir os caudais de entrada continuamente e comparar com o consumo facturado dentro de cada zona. É aqui que a perda deixa de ser um número da empresa e passa a ser um número de um bairro. É também o passo que exige instrumentação e que, por isso, é normalmente adiado.
- Caudal mínimo nocturno. Às duas da manhã o consumo legítimo está no mínimo. O que continua a entrar na zona é, na sua maior parte, perda. Medido durante algumas semanas, o caudal nocturno ordena as zonas por gravidade — e ordenar é o que permite enviar a equipa ao sítio certo em vez de ao sítio mais reclamado.
A distinção prática é simples: o passo 1 diz-lhe quanto perde e serve para reportar; os passos 2 e 3 dizem-lhe onde perde e servem para agir. Um programa de redução de perdas que só tem o passo 1 é um programa de relatório.
Nem toda a água não faturada saiu do cano.
Perdas reais
Água que sai fisicamente do sistema — roturas em condutas e ramais, fugas em reservatórios, extravasamentos. Custa-lhe o tratamento e a bombagem, e resolve-se com detecção, reparação e gestão de pressão. É o que o caudal mínimo nocturno mede melhor.
Perdas aparentes
Água que chegou ao cliente mas não à factura — contadores que sub-registam, ligações não autorizadas, erros de leitura e de dados comerciais. Não custa tratamento adicional, custa receita, e resolve-se com verificação, substituição de contadores e reconciliação. É o que a comparação zona-a-facturação revela.
A distinção importa porque as duas exigem investimentos completamente diferentes, e porque um sistema que trate perdas aparentes como se fossem reais gasta em brigadas de reparação aquilo que devia gastar em contagem. A medição por zona é o que separa as duas antes de gastar. Para o lado da contagem do cliente, veja verificação de contadores pré-pagos.
Quando entra um operador privado, a linha de base passa a valer dinheiro.
Angola está a estruturar parcerias público-privadas em regime de affermage em quatro cidades médias do Corredor do Lobito e noutras áreas prioritárias. O percurso previsto passa por um contrato de gestão com o MINEA por três anos, prorrogável por mais dois, seguido do contrato de affermage — modalidade em que a propriedade dos activos permanece pública. O PDISA II, financiado pelo Banco Mundial e pela Agência Francesa de Desenvolvimento, reforça a capacidade institucional para preparar estes processos.
Este contexto muda a natureza do problema da medição. Num sistema gerido inteiramente pelo sector público, a ANF é um indicador de desempenho. Num contrato de gestão ou de affermage, a ANF é uma cláusula — há uma linha de base, há metas de redução, e há consequências contratuais associadas ao seu cumprimento. Uma linha de base estabelecida sobre estimativas é uma disputa adiada; estabelecida sobre medição por zona, é um facto que ambas as partes podem verificar.
É por isso que o momento certo para instalar medição de zona é antes da transição, e não depois — quando ainda é um instrumento de gestão e não já um instrumento de litígio.
As metas, e a medição que as torna verificáveis
| Indicador | Valor | O que exige da medição |
|---|---|---|
| Meta nacional de ANF | <40 % até 2027; <30 % até 2030/32 (Pacto Nacional pela Água) | Uma linha de base medida — hoje quase inexistente |
| Cobertura de água potável | 57 % (2025) → 61 % (2027) → ≥89 % (2030/32) | Cada ligação nova sem contador em bloco agrava a ANF |
| Modelo PPP (Corredor do Lobito) | Contrato de gestão de 3 anos, depois affermage | A linha de base vale dinheiro no dia em que o operador privado entra |
| EPAL — ~500 000 clientes, dívida Kz 96–99 mil milhões | Recuperação por cortes selectivos | Reconciliação zona a zona, não cliente a cliente |
A camada de telegestão, sobre a rede que existe.
- Contagem nas entradas de zona, com registo contínuo e não com leitura periódica — porque o caudal mínimo nocturno só existe se alguém estiver a medir às duas da manhã.
- Pressão em pontos críticos, que serve o duplo objectivo de detectar anomalias e suportar a gestão de pressão, normalmente a intervenção com melhor relação custo-benefício em redes com muitas roturas.
- Nível de reservatórios e estado das estações elevatórias, para fechar o balanço entre o que se produz, o que se armazena e o que entra na rede.
- Alarmes por variação e não apenas por limiar — um caudal nocturno que sobe ao longo de dias é uma rotura a começar; um alarme que só dispara no limiar avisa quando já é uma rotura feita.
- Registo que sobrevive à falha de energia, com nós alimentados a solar ou bateria que guardam localmente e reenviam. Numa rede onde a energia falha, monitorização que pára com a energia deixa buracos precisamente nas noites que interessam.
- Exportação e reconciliação no formato dos relatórios que tem de apresentar, para que o reporte seja uma exportação e não uma reconstrução.
Água não faturada em Angola
Qual é a meta de água não faturada em Angola?
De acordo com o Pacto Nacional pela Água, Angola comprometeu-se a reduzir a água não faturada para menos de 40% nos principais sistemas urbanos de abastecimento até 2027, e para menos de 30% até 2030/2032. O país fixou igualmente a meta de universalização do serviço de abastecimento de água até 2027.
O que é uma zona de medição e controlo?
Uma zona hidraulicamente discreta da rede de distribuição — tipicamente de algumas centenas a alguns milhares de ligações — com todas as entradas medidas, de modo a comparar o volume que entra com o volume facturado no seu interior. A medição contínua da entrada, em especial o caudal mínimo nocturno, é o que torna a zona um instrumento de diagnóstico e não apenas uma divisão no mapa.
Porquê medir de noite?
Porque por volta das duas da manhã o consumo legítimo está no seu mínimo. O caudal que continua a entrar na zona é, na sua maior parte, perda. Comparar o caudal nocturno entre zonas ordena-as por gravidade, e essa ordenação é o que permite dirigir uma equipa de detecção ao local com maior retorno em vez do local com mais reclamações — que raramente são o mesmo.
Qual a diferença entre perdas reais e aparentes?
As perdas reais são água que sai fisicamente do sistema — roturas, fugas, extravasamentos — e custam tratamento e bombagem. As perdas aparentes são água entregue mas não facturada: sub-contagem, ligações não autorizadas, erros de leitura e de dados comerciais, e custam receita. Exigem investimentos diferentes, e distingui-las antes de decidir é o principal contributo da medição por zona.
Substituem os contadores existentes?
Não como primeiro passo. Onde a contagem instalada é legível electronicamente, lemos daí. Novos equipamentos entram onde a medição está genuinamente ausente — normalmente nas entradas de zona, que é onde a maior parte dos sistemas não tem nada. Substituir contagem funcional é o último recurso, não o primeiro orçamento.
Por onde deve começar um sistema com orçamento limitado?
Por uma zona, não pela rede toda. Escolha o bairro onde suspeita das maiores perdas, meça as entradas, acompanhe o caudal nocturno durante algumas semanas e reconcilie com a facturação dessa zona. O resultado é ou um número que justifica a zona seguinte, ou a prova de que a perda está noutro lado — e ambos valem mais do que uma estimativa para o sistema inteiro.
A meta é uma percentagem. O trabalho é uma zona.
Envie a um engenheiro o esquema do sistema e os últimos volumes produzidos e facturados. Recebe uma proposta de primeira zona dimensionada para o orçamento que tem.